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ANTÓNIO SANTOS COSTA (Pintor - Escritor)
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 António Santos Costa
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+ BIOGRAFIA +
--------------------------- JORNALISTA --------------------------
ANTÓNIO JOSÉ ROLO DOS SANTOS COSTA nasceu em Lisboa no dia 23 de Março de 1953. Sempre dedicado às Artes, particularmente Letras e Pintura, SANTOS COSTA iniciou a sua actividade como Jornalista no “Record” em 27 de Fevereiro de 1977, como colaborador, ascendendo ao cargo de Chefe-de-Redacção em 1980, mantendo-se nessas funções até finais de 1990. Mais tarde, entre 1993 e 1999, foi redactor-paginador, redactor-principal, Chefe-adjunto, Editor de Publicações, Editor de Dossiers, Reportagens e Entrevistas e também Colunista. Em 25 anos de actividade jornalística sempre ao serviço do “Record”, SANTOS COSTA acompanhou, no estrangeiro, equipas portuguesas em alguns grandes eventos internacionais, como as finais da Taça dos Campeões Europeus, em 1988 e 1990, em Estugarda e Viena, respectivamente (Benfica-PSV e Benfica-Milan), a final da Supertaça europeia, em 1987, em Amesterdão (Ajax-FC Porto), a final da Taça UEFA, em 1983, em Bruxelas (Benfica-Anderlecht), as finais da Taça das Taças, em 1987, em Atenas (Ajax-Dinamo de Dresden) e 1991, em Roterdão (Manchester United-Barcelona), além de cobrir os dois Mundiais de Sub-20 em que a Selecção Nacional se sagrou campeã mundial, na Arábia Saudita, em 1989, e em Portugal, em 1991. Santos Costa cessou a sua colaboração com o Jornal "Record" no final de Dezembro de 2002
------------------------------------ LITERATURA -------------------------------------------
Na Literatura, SANTOS COSTA utilizou um outro seu nome, ANTÓNIO ROLO, uma opção para não ser conotado com o veterano jornalista há mais de duas décadas ligado ao Desporto. No início do ano de 2002, a EDITORIAL ESCRITOR publicou o seu romance “SOMBRAS DE NINGUÉM”, uma obra baseada em factos verídicos ocorridos entre 1974 e 1975 na efervescente sociedade civil portuguesa pós 25 de Abril e a dureza de uma unidade de elite do Exército, o CENTRO DE INSTRUÇÃO DE OPERAÇÕES ESPECIAIS, os célebres RANGERS sediados em LAMEGO, unidade mítica que conheceu profundamente por ali ter passado para efectuar um curso da Especialidade.
-------------------------------------- PINTURA ---------------------------------------
ANTÓNIO SANTOS COSTA começou a expressar emoções na Pintura em 1999. Autodidacta, tinge a óleo ou acrílico sentimentos e pensamentos, sem linha definida ou rumo preestabelecido. Admirador confesso de Kandinsky, manifesta estados de espírito com a cor. Ou negros e cinzentos de pouco contraste ou cores básicas, violentas numa vizinhança que quase provoca a agressão visual. Com cinquenta obras feitas e exposições efectuadas no INSTITUTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS (2002) e GALERIA PORCA PRETA (Monchique) tem permanentemente alguns dos seus trabalhos expostos no CAFÉ BEIRA CHAVES (Queluz – Monte Abraão) e em diversas galerias on-line.
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“A SOGRA” – Romance que pode acompanhar “on-line”
-------------- Capítulo I -------------
Voltas e mais voltas na cama. Os olhos da mulher irrequieta sobre o colchão, semicerrados na escuridão do quarto, ora se fixam na penumbra aveludada da janela, ora se perdem no negrume do ambiente que nem as paredes brancas consegue atenuar. Quase três horas da madrugada, indicam os dígitos vermelhos do relógio de sentinela na mesa-de-cabeceira. Números presenciais de uma insónia cúmplice entre o aparelho temporal e ela. A mulher estacionou os olhos por longos minutos naquele farol compassado que avança pelas horas fora. Decide-se. Empurra, com um gesto brusco e enfadado, o lençol de seda, creme, e o edredão estampado, negro e branco, para cima do marido adormecido. Apalpara-o na esperança de despertá-lo. Nem sinal de vida da cabeça ao sexo. Encolheu os ombros, conformada. Tacteia o roupão fino, dobrado sobre o estreito sofá, ao lado da cama. Já em pé sobre o fofo tapete enverga-o sobre a pele nua. Sai do quarto apressadamente como se estivesse sem o ar suficiente para se manter neste Mundo com vida. Antes de deixar a divisão espaçosa, agora a comprimir-se à sua volta como uma garra poderosa em torno de uma frágil presa, suspira profundamente. Atira os cabelos compridos para fora do roupão e praguejou baixinho ao tentar encontrar o puxador da porta. Apenas o ressonar compassado do marido lhe responde. Amaldiçoa-o sem palavras. Ao sair para o corredor, Sílvia sente-se como um animal em cativeiro devolvido à liberdade. Inspira com sofreguidão e o peito sobe no seu corpo e espreita para fora do roupão. Dirige-se para a sala. Liga um pequeno candeeiro de mesa. A luz fraca realça a alvura da sua pele, a qual contrasta violentamente com o azul ultramarino do roupão. Tira um copo do bar e enche-o de licor de uísque. Adiciona-lhe duas pedras de gelo. Envolve a base do copo com um guardanapo de papel vermelho. Estira-se no longo sofá de pele. Negro. O roupão desliza quando ela se aconchega numa posição fetal, um cotovelo apoiado no braço do sofá como os romanos em orgias ou banquetes, e descobre-lhe as pernas e um dos seios. Pousa o copo na carpete persa e aponta o comando ao televisor. Percorre vários canais e, por fim, tenta prestar atenção às figuras que se contorcem em actos de sexo no ecrã.
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O último comboio da Linha de Sintra, com partida do Rossio, cortava a noite como uma tesoura de alfaiate vai avançando, decidida pela mão firme que a dirige, pelo tecido. A luz fraca da carruagem da frente da composição quadrimotora ilumina pouco menos que os riscos de aço paralelos engolidos pelos rodados sôfregos de via. Poucos passageiros ocupam os bancos quando os ponteiros do relógio quase tocam as três da madrugada. Alguns jovens, rapazes e raparigas, são os mais exuberantes. Nativos suburbanos por excelência acabam de dar uma volta rápida pelos bares do Bairro Alto não muito concorridos num dia de semana. “Bué da loucos” com uns “shots” e umas cervejas compradas nas lojas de conveniência, mais em conta, antes de entrarem no mundo pluricolor dos espaços ribombantes de música mais ou menos “hard”. São horas de “bazar” para casa que amanhã, ou dentro de horas, é tempo de escola secundária.
Uma das garotas, magra e loira, deixa o rapaz a seu lado, moreno e alto, sem fôlego com intermináveis beijo na boca. A amiga, mulata, não se interessa por nenhum dos cinco rapazes que completam o grupo. Apesar do assédio descarado ou implícito dos miúdos fascinados pela beleza exótica da rapariga. Dormitam os mais velhos, cabeça oscilando ritmada pelos balanços do comboio. Quatro maduros da “ferrugem” batem uma suecada sonora de comentários, ora de euforia ora de fúria com as asneiras do parceiro. Cada um considera-se o melhor jogador do Mundo e olham para todos os outros como idiotas chapados. Dois polícias percorrem os corredores, com aquele ar marcial sob o chapéu de “baseball”. As mãos atrás das costas são o seu suplemento de autoridade. A destoar do cenário nocturno, uma senhora, na casa dos sessenta, aparentava um ar de tia-avó saída de uma festa do “jet-set”.
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--------------- “SOMBRAS DE NINGUÉM” (Romance editado em 2001) --------------
CRÍTICA
“Poderosamente entrosada com a vida, a arte literária do autor arrebata-nos pela clareza, pelo ritmo, pela verosimilhança. Realidade ou ficção? O leitor não resolverá o dilema nem após a última página. Alternando a profunda ternura com a dureza mais árdua, “SOMBRAS DE NINGUÉM” é um livro de suspense. Mas, ao desvendar-se o suspense, o protagonista amarrar-se-á à paixão que o domina ou fará a justiça por suas mãos a que se sente destinado?”
+++++++++++ Excertos de “SOMBRAS DE NINGUÉM” +++++++++++
“O balcão em forma de ferradura do snack-bar Adriano assemelhava-se a um longo terminal de caminho de ferro. Ali, naquela larga linha de madeira envernizada e salpicada de espuma de cerveja, estacionava um interminável comboio de copos vazios.
- Meninos, vamos a sair daí. Quero começar a pôr as toalhas, os pratos e os talheres para o jantar - barafustava amigavelmente a Bia. Eu e os meus amigos de longa constituíamos o motivo da cólera teatral descarregada pela eléctrica, loura, roliça e vistosa empregada.”
“ (...) A lava da paixão irrompeu com violência. O êxtase provocado pelo líquido quente na cara e nos lábios fê-la revirar os olhos e passar a língua pelos lábios grossos. Depois enxugou alguns salpicos de sexo com os longos cabelos. Subiu a cabeça, devagar, ao longo do meu corpo e fixou os olhos grandes nos meus.”
“ (...) O nosso comandante mandou um furriel executar o movimento repetidas vezes até desaparecer qualquer espécie de dúvida das nossas cabeças. Chegou a nossa vez.
Fiz o que julgava ser um mergulho digno de uma medalha. Assim não o entenderam.
- Senhor Rolo, você parecia que ia deitar-se em cima de uma velha e respeitável condessa de setenta anos para a foder com toda a delicadeza. Faça isso como lhe ensinaram.
Corri durante uns metros. Sem esperar, uma bala disparada da G-3 do tenente enterrou-se no solo a parcos centímetros das minhas botas.”
“ (...) As duas mulheraças temperadas na infância pelos ares do campo aconchegaram-se entre nós. Passámos o tempo na galhofa e com uns jogos de mãos sob a enorme mesa coberta por uma toalha aos quadrados vermelhos e brancos. Olhei para o relógio e observei em voz alta:
- Está na hora de embarcar para Lamego.
- Lamego? Jesus! - Quase gritou a companheira do Almirante.
Olhámos uns para os outros com surpresa. Ciosos com a comida e entretidos com as apalpadelas nas partes íntimas das mulheres nem informáramos as angariadoras de clientes sobre a nossa próxima etapa.
- Jesus porquê? - Questionou o Almirante, porta-voz da nossa repentina quebra de à-vontade.
- Vocês vão meter-se no Inferno. Que Deus vos acompanhe. - Desejaram-nos com preocupação.
Não havia tempo para entrar em pormenores. Foi pena. Elas podiam dizer-nos mais alguma coisa sobre aquela unidade que ninguém conhecia. O comboio da noite para a Régua estava prestes a penetrar nas entranhas da Linha do Douro.
Antes de chegar à gare lavada do verde das fardas passámos pela patrulha da Polícia Militar. Agarrei o Almirante por um braço não fosse implicar com os odiados chuis da tropa. Era imperioso apanhar o velho e estafado comboio a diesel de carruagens vermelhas e brancas. Nos desconfortáveis bancos castanhos, duros como pedra, apinhavam-se militares destinados aos quartéis de Penafiel, Lamego, Vila Real e Chaves. A noite engolia a composição que se arrastava lentamente aos solavancos. Detinha-se em todas as estações e apeadeiros com um guinchar irritante dos travões. A linha era velha e estava em mau estado.”
“ (...) Até desembarcarem os primeiros soldados de Penafiel ainda se adivinhava alegria nas conversas ou nos jogos de cartas. A pouco e pouco, a fadiga de um dia agitado amoleceu os corpos, um após outro, e encaminhou as conversas rumo ao silêncio. Tombava-se sobre os bancos e cerravam-se os olhos. A algazarra desaparecera, notavam-se apenas murmúrios intermitentes, quase imperceptíveis. Sacos de todas as cores e feitios serviam de travesseiro, outros, menos viciados no conforto, ajeitavam-se nas tábuas das prateleiras da bagagem por cima das janelas. Passei pelas brasas, tal como os meus companheiros de jornada. Mantínhamo-nos inseparáveis. O inesgotável Almirante deixava-se embalar pelo ritmo monótono do monstro de ferro que se equilibrava nos carris a poucos metros do leito do Douro. Esgotado o vasto repertório de chalaças cedera também ao esgotamento físico. As malditas luzes amarelas sem brilho proporcionavam um cenário idêntico ao de um dormitório miserável de deserdados da fortuna.
O comboio deteve-se pela enésima vez. Olhei pelo vidro. Esforcei-me por romper a cortina negra que tapava com pudor as curvas do rio. O negrume e a chuva miudinha, furiosos pela tentativa da violação da intimidade, devolveram-me o olhar vazio de revelações.
- Onde estamos? - Quis saber o Fróis, sem abrir os olhos.
- Não faço ideia. - Respondi, depois de bocejar. - Não se consegue ver a ponta de um corno.
- Chegámos? - Sobressaltou-se o Almirante. - O filho da puta do revisor não nos acordou como combinámos.
- Tem calma. Dorme. Isto é um apeadeiro qualquer. O "pica" prometeu avisar-nos quando chegássemos.”
(...) Costumava dizer o nosso instrutor de demolições e outras maldades que não era um militar, era um Ranger. Tão voluntário como nós para as Operações Especiais, o que significava que também ele nunca ouvira falar do CIOE antes de lá entrar, o tenente Angelo exibia em todas as ocasiões um refinado sentido de humor e adorava pregar partidas tanto aos instruendos como aos furriéis ou oficiais, mesmo os de patente mais elevada. A irreverência típica daquele rapagão com espírito de criança não obstava a que desempenhasse as missões de modo exemplar. Mesmo nas perigosas aulas de sapadores e sabotagens - em Lamego tudo era feito de acordo com a realidade e como tal as cargas explosivas eram reais - conseguia aliar o ensino do manuseamento daquelas matérias mortíferas ao sentido de humor. Algumas das suas brincadeiras quase matavam de susto os alvos das suas excentricidades mas nunca colocou em perigo os alunos receosos ou os companheiros desprevenidos. Quase tão largo como alto, tipo bolinha ou caga-tacos, movimentava-se com uma agilidade incrível para a sua estatura e gabava-se amiúde da sua pontaria, com armas de fogo ou morteiros, que na verdade era notável. Muitos dos instruendos não apreciavam particularmente aquelas aulas porque os objectos eram perigosos: trotil ou TNT, 808 ou plástico, pentalite, composição B, cordão detonante, rastilhos, escorvas, detonadores eléctricos, pirotécnicos, de atraso, enfim uma variedade assustadora de artefactos de características diferentes com quer tínhamos de lidar. Logo na apresentação vimos que aquilo não ia ser uma pêra doce. Numa zona plana orlada por duas valas de meio metro de altura o tenente colocou duas granadas defensivas juntas, sensivelmente a meio do palco que receávamos pisar. Dirigiu-se para a trincheira onde nos encontrávamos e deu-me uma granada defensiva para a mão.
- Vamos, senhor Rolo, rebente com aquelas pinhas.
- Como é que vou fazer isso? - Pedi explicações ao oficial, ao mesmo tempo que mirava desconfiado a granada que empunhava. Durante a recruta só tinha atirado uma granada verdadeira e mesmo assim quase para dentro de um poço e com o aspirante ali mesmo ao lado quase tão nervoso como eu.
- É fácil, seu cara de caralho ! - Estava nas suas sete quintas o tenente Angelo. Babava-se de prazer, inchado dentro do camuflado que ameaçava rebentar pelas costuras. Mexia-se com a confiança de um mecânico experiente na oficina, um médico calejado no hospital ou uma puta velha no bordel - Corre com essa merda na mão, quando chegar junto às duas granadas descavilha essa e coloca-a perto das outras, depois já sabe que tem de mexer bem essas patas ou fica sem colhões. Entendido?!
Eu suava com a granada na mão, mas decidira que faria aquele número arriscado. Medi em pensamento a distância entre as duas granadas altamente mortais e a vala do outro lado do terreno liso. Calculei: "Três segundos chegam para cair lá dentro".
- Vai ficar aí todo o dia com essa porra na mão como uma gaja agarrada à pixa do marido? - Admoestou o tenente.
- Vou já, meu tenente..."
NOTA: Este livro é fácil de encontrar nas livrarias “on-line”.
++++++++++++++ “AMANTES LUA NEGRA” (Romance editado em 2002) +++++++++
Apaixonado por História, ANTÓNIO ROLO investigou o período negro da I Invasão Francesa (1807) e escreveu um conto ficcionado, trágico, fantástico, épico de homenagem aos resistentes e massacrados da BEIRA BAIXA, província de onde é natural a sua Família.
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Um breve excerto do Conto “AMANTES DA LUA NEGRA”, editado pela Editora PALIMAGE:
“(...) O general Loison esticou o braço em direcção ao ajuntamento de gente altiva de roupas modestas, coçadas, remendadas em redor do porco morto sobre a tarimba. O vento sonegou as palavras aos ouvidos dos primeiros portugueses a encontrarem-se com o invencível poderio napoleónico. Os soldados apeados avançaram sobre os aldeões de armas em riste e baionetas ameaçadoras. Os homens, peito aberto, protegeram com o corpo as mulheres que escondiam as cabeças nos xailes e os miúdos ranhosos, descalços na geada cortante de frio. Antevendo um final trágico, os mais destemidos apalparam as navalhas que traziam sob a roupa e trocaram olhares significativos. Habituados à fronteira, sabiam que naquelas ocasiões o sangue masculino se derramava, os corpos femininos eram violados e as crianças ou mortas ou simplesmente abandonadas à sua sorte. O ferreiro subiu a rua, apressado, ocultando um machado no avental de pele de vaca curtida.”
“ (...) Diogo da Silveira, alferes de um esquadrão de cavalaria da Legião Portuguesa em parada no castelo de São Jorge, estremeceu quando viu ser arreada a bandeira das Quinas de Portugal e subir no seu lugar o estandarte tricolor da França. O sangue do seu corpo circulou mais rapidamente ao reparar que os seus compatriotas da Legião Portuguesa apresentavam armas ao símbolo gaulês azul, branco e vermelho desfraldado ao vento. Um ardor tão inesperado como intenso irradiou do seu peito, tomando-lhe conta dos braços e das pernas. O cavalo castanho que montava inquietou-se como se apercebesse do nervosismo do dono e raspou os cascos no empedrado da parada. Diogo da Silveira tomou consciência da traição à Pátria em que incorreria se prestasse honras ao estandarte de França. A sua cabeça iluminava-se. As ideias clarearam como a manhã depois das trevas da noite. Receando começar a delirar com estes turbilhões de pensamentos ao aperceber-se de rumores para além das muralhas seculares do castelo. “Morra a França, Viva Portugal”. O vento trouxe os brados de descontentamento e de fervor nacionalista aos seus ouvidos. Nítidos. Ele, um aventureiro que nunca se interessara por questões políticas e nem sequer simpatizava com o regime monárquico, foi impelido por poderosas forças ocultas para se rebelar contra os repressores das vontades e das tradições do povo, como fora, por exemplo, a proibição de manifestações litúrgicas na época do natal. O jovem oficial herege, opositor das arbitrariedades da realeza, defensor da extrapolação das virtudes das revoltas americanas e francesas à sua terra decidira-se a cortar os laços com os anticristos às ordens de Junot.
Fez avançar o cavalo castanho meia dúzia de passos para se destacar nitidamente do seu regimento. “Morte à França, Viva Portugal”, o descontentamento a descambar em fúria contra o invasor soava mais nítida do que nunca. Os olhares de centenas de homens fixaram-se nele. Junot e o general Gomes Freire de Andrade, seu comandante directo, imobilizaram-se. Perplexos. Diogo da Silveira deteve a montada, retirou o penacho que lhe cobria a cabeça, arrancou os galões de oficial e, num ápice, desembainhou a espada que lhe conferia a autoridade, partindo-a com vigor.
Antes que alguém adivinhasse as suas intenções, o ex-alferes da Legião Portuguesa lançou o cavalo a galope. Atravessou a parada ainda a recompor-se do efeito do insuspeito acto de deserção e arrebatou das mãos de quatro soldados franceses a bandeira portuguesa acabada de ser arreada. Saiu pela porta estreita do castelo antes de as duas sentinelas armarem as espingardas de pederneira. As ferradura do cavalo faziam saltar faíscas nas pedras das calçadas pela encosta do castelo abaixo”.
NOTA: Tenho exemplares para venda em meu poder. Contacte-me por e-mail se estiver interessado num exemplar.
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